Parte 1

Umas das entrevistas mais completas sobre a história da banda e de seu frontman, Billie Joe, já publicada… Divirtam-se!

Traduzido por : Livia Theocharides e Daniel Alcântara

Entrevista: Billie Joe Armstrong  Parte 1 por Larry Livermore

Eu tive uma conversa muito longa com Billie Joe entre o final de 2001 e o início de 2002 e esta é a  primeira parte dela. Eu acho que a entrevista apareceu, originalmente, no “Hit List”. Poderia ter sido no “Punk Planet”, mas eu tenho quase certeza que foi no “Hit List”.

Já faz 13 anos desde a primeira vez que eu vi o Green Day e eu já contei a história tantas vezes que eu não vou me debruçar sobre ela de novo.  Basta dizer que eu estava completamente atropelado por essas jovens crianças, as quais seriam uma banda somente em umas poucas semanas, as quais tinham acabado de entrar em uma estrada selvagem de quase 200 kms para um show em uma cabana, numa montanha congelante para uns 5 adolescentes entediados e ainda conseguiram tocar como se fossem os Beatles no Shea Stadium. Eu não vou alertar. Eu sabia o quão grande eles se tornariam alguns anos depois ou como o sucesso deles mudariam a cena do punk rock pra sempre. Eu simplesmente sabia que bandas assim não nasciam todo dia.

Green Day foi, de longe, a banda mais famosa que veio da cena da “East Bay” e da cena do “Gilman Street”, mas eles eram só uma parte dessa cena, uma cena, a qual ela mesma remodelou os ideais e a imagem do punk rock de maneira que, dependendo de quem você está ouvindo, pode ser melhor ou pior. Billie Joe Armstrong, guitarrista e vocalista do Green Day, nós mais ou menos crescemos no “Gilman Street” e nós dois contamos os anos que passamos lá como os mais importantes das nossas vidas. Eu tive a honra de trabalhar com o Green Day em seus dois primeiros álbuns, antes de eles irem para a “Reprise Records” e virarem uma banda megaplatinada. O baterista, Tré Cool é um ex-aluno da minha banda de punk rock “The Lookouts”. Muita coisa passou desde 1988, e um dia, no verão passado, Billie Joe Armstrong e eu sentamos para ter uma conversa sobre tudo isso.

Okay. Você está chegando ao seu 30º aniversário. A faixa dos 20 anos é uma década bem tumultuada para a maioria das pessoas. Foi quando vocês começaram com as suas vidas por conta própria, quando fizeram todos os tipos e escolhas e cometeram todos os tipos de erros. E, olhando pra trás, quando você tinha 20 anos, você se sente realizado ao extremo.  Quando você estava completando 20 anos, o seu segundo álbum “Kerplunk” havia acabado de ser lançado, você era parte de uma banda que estava começando a chamar um pouco a atenção, mas ainda tocando em muitas garagens, subsolos e pequenos clubes. Devia estar ganhando dinheiro suficiente para se manter vivo, mas apenas o suficiente para chamar isso de “fazer a vida”. Eu gostaria que você pensasse sobre o contraste entre esse momento e agora e o quanto você conseguiu de lá pra cá… É uma questão óbvia, mas você poderia ter ao menos imaginado o que os próximos 10 anos iriam trazer pra você?

(Billie)  “Eu acho que, no momento eu senti tipo um…incômodo de pensar sobre o meu futuro. Muito disso, tem a ver com estar na Europa. Era nossa primeira vez por lá, nós estávamos fazendo os “squats” e shows em pubs com “Christy Colcord” e “Aidan” e, você sabe, era um pouco assustador. Acho que todos nós estávamos assustados porque não sabíamos o que nosso futuro ia ser mesmo. Completar 20 anos era assustador também, porque era tipo “Puta merda, eu não sou mais um adolescente”. Eu me senti velho, e é ridículo pensar nisso agora, mas naquela época sentimos que as coisas tinham que começar a se mexer para nós ou alguma coisa assim.”

Nós estamos falando sobre algo típico que alguém com 20 anos passa  “O que eu vou fazer pra viver? Eu não posso mais morar com mamãe e papai.”  Ou é mais tipo “O que vai acontecer com a minha música?”

(Billie) “Tem um lado seu que sente como se estivesse morrendo ou alguma coisa assim e você está assustado com isso, mas então tem a questão de “O que vai acontecer com essa música e esse trabalho que nós vamos fazer?” “Será que só vai ser legal agora para a cena punk rock, ou não, dependendo de quem você fala?” “Isso vai ser esquecido e outro grupo de caras vão se juntar e tomar seu lugar?” Você realmente começa a pensar sobre o seu potencial como músico, como artista e como ser humano. Você não quer isso para ser “tudo ou nada” e eu acho que isso é uma coisa que nos diferencia das outras bandas. Nos vivíamos para nossa música muito mais do que outras bandas faziam. Outras bandas pareciam mais focadas em coisas tipo “ir para a escola e tocar música fica de lado” ou “ir trabalhar e tocar música fica de lado”  Nós queríamos viver  totalmente e “respirar” nossa música.”

Você já disse no passado que você realmente não tem mais nada além de sua música …

(Billie) “Isso é verdade. E todos nós estávamos realmente fissurados sobre isso. Nós não estávamos apenas fingindo, não estávamos apenas tentando ser punks, éramos também bons músicos. Mas em algum ponto você começa a pensar, você não pode fazer isso para sempre, pode? Então você deseja obter o máximo de fora de tudo isso que conseguir.”

Você vendeu, aproximadamente, 10.000 álbuns , o que naquele tempo era muito bom para a cena punk underground, mas foi difícil o bastante para basear uma carreira nisso.  Você teve alguma dúvida de verdade se você seria capaz de continuar tocando, talvez até fazer uma vida na música?

(Billie) “A essa altura eu já estava tocando a minha vida inteira mesmo, eu sabia que eu terminaria tocando independentemente, se fosse capaz ou não.”

Você é bem pago ou não?

(Billie) “Sim…eu só não queria ser um daqueles caras dirigindo por aí em um carro com um adesivo “Músicos de verdade tem dia de pagamento.”

Sim, isso realmente me irrita. É a mesma coisa de dizer “Eu sou um gênio, o mundo apenas não me entende”, e eu sou como, “Se você é um gênio, como é que ninguém parece perceber isso?”

(Billie) “Mesmo depois de todo o sucesso que nós tivemos, eu fiquei ativo na cena punk, e eu realmente tive a escolha se eu queria ou não continuar (na cena punk). Eu poderia ser apenas uma estrela do rock ocupada, ou eu poderia me manter ocupado ajudando as bandas dos meus amigo por fora, coisas como tocar baixo com os “ Influents”, lançando discos de bandas que eu respeito… E eu não tenho de fazer isso, obviamente.”

Por outro lado, e quanto ao apelo de ser um rock star? Você também checou essa cena?

(Billie) “Isso soa mais como morrer…”

Eu estava sendo um pouco sarcástico…

(Billie) “Seriamente, embora isso não soe como nenhuma diversão mesmo pra mim.”

Eu gostaria de voltar ao conceito de estrelas do rock ocupadas depois, mas você me trouxe até outra coisa que eu queria tocar, que foi a sua ligação com a cena punk, e ao mesmo tempo ser um músico. Quando te conheci, você tinha 16 anos, tinha cabelos longos, fumava muita maconha e não correspondia à imagem punk. Você ouviu seu instinto que gostava de tocar música. Então, eu gostaria de saber um pouco mais sobre como você chegou a esse ponto, o que você vinha fazendo no ano antes de nos conhecermos?  Quem era Billie Joe Armstrong?

(Billie) “Eu era uma cantor muito jovem, eu estava cantando este tipo de música “Brat Pack”, você sabe. Meu pai era um baterista de jazz, então eu acho que me influenciou muito na época em que eu comecei . É meio estranho, um menino de 8 anos de idade cantando “Satin Doll” ou algo parecido.era o que mexia comigo na época.”

Você foi levado a isso ou foi alguma coisa que você mesmo quis fazer?

(Billie) “Eu não sei, acho que foi um pouco dos dois. Meus pais queriam que meu tempo fosse ocupado e música pareceu  a coisa mais natural que veio pra mim.”

Você era o filho mais novo?

(Billie) “Sim.”

De quantos?

(Billie) “De sei. Havia muita influência musical na nossa casa. Como meu irmão Alan nasceu em 1950, e tinha 18 anos em 1968 então, obviamente, eu iria ouvir muito dos Beatles. E eu estava ouvindo também muita música Heavy Metal e tentando aprender como tocar guitarra.”

Quais eram algumas das suas bandas de metal favoritas?

(Billie) “Eu gostava muito de AC/DC, Van Halen. Uma noite quando nós vimos a banda “Red Planet”, eu acho que eu era o único lá que sabia qual música cover eles fizeram, alguma coisa “Fair Warning”. E então minha irmã estava mais para algum lugar de “Bruce Springsteen” para “REM to the Replacements” e acho que se tornou a  minha maior influência que fez a ponte do Heavy Metal para o Punk.”

Você escutava Metal antes de começar a ouvir Punk ?

(Billie)  “Sim.”

Você se auto chamaria de eclético naquela época?

(Billie) “Eu não sei. Eu tinha gostos diversos. Eu era mais como um roqueiro, uma espécie de garoto tipo “dirthead”. Eu também gostava muito de Beatles e de  Elvis , que na época muitos dos meus amigos achavam que era…”

.. Música de terceira idade?

(Billie) “Eles não sabiam o que era aquele tipo de música, e eu gostava muito de Frank Sinatra, esse tipo de coisa era como os clássicos para mim, onde muita gente pensou que era apenas passageiro.”

Já te pediram pra fazer alguma coisa tipo Frank Sinatra quando você ficasse mais velho?

(Billie) “Já me pediram. Pediram para eu fazer uma versão de “Witchcraft” para os “Oceans”. Eles estão refazendo ela, você sabe, e eu estava tipo “Eu conheço “witchcraft”, conheço ela a minha vida inteira”, ia ser legal.”

Era o tipo de coisa que o seu pai tocava, certo?

(Billie)  “Isso, mas também coisas como “Herbie Hancock”, aquela música “Watermelon Man…”. Eu me lembro desse cara vindo à minha casa, ele tocava saxofone e tinha uma perna falsa. Eu acho que o nome dele era “Al” ou alguma coisa assim e ele sempre vinha com aquela voz rouca “Hey Billie, como você está?”.”

Portanto, este não era como um lar suburbano convencional, exatamente?

(Billie) “Não. É estranho, porque meus pais são o tipo de pessoas convencionais e também eram muito mais velhos do que os pais de outras pessoas. Lembro-me de meu pai com 50 anos quando eu era muito jovem, enquanto os pais dos meus amigos tinha 30 anos. Então talvez seja por isso que havia um monte de jazz e música country flutuando em torno da minha casa.”

Isso foi principalmente sobre música, ou eles eram velhos bohemios da “Old school”?

(Billie) “Eles foram bastante convencionais  socialmente e moralmente. Mas eles tinham gostos diferentes. Houve algumas coisas que foram muito legais sobre isso. Minha mãe falava sobre como era na década de 50 que iriam trabalhar durante toda a semana para que eles pudessem sair e comprar as melhores roupas  para ir ao “Clube Melody” nos fins de semana. Já meu pai parecia realmente afiado o tempo todo, sempre teve boas roupas e coisas caras, e ele nem sequer podia pagar..”

Sim, eu ia dizer isso, com seis filhos não poderia ter sido um monte de dinheiro que flutuam ao redor da casa…

(Billie) “Não. Mas isso foi muito antes. Até o momento eu estava crescendo nos anos 70, meu pai estava gastando muito tempo na estrada, dirigindo caminhões para “Safeway”, e parecia que ele estava sempre em greve, segurando cartazes em frente da “Safeway” cada dois meses.”

Era exatamente o tipo de trabalho sindical da base das coisas, ou ele era político num sentido mais amplo?

(Billie) “Não, não tem nada haver com política. Era mais como uma união, homens da classe trabalhadora tentando obter o que lhes eram de direito.”

Deviam ter sido tempos difíceis …

(Billie) “Sim, um monte de amigos meus viviam com seus pais até depois dos 20 anos, e eu não acho que haja algo de errado nisso mas a maioria deles teve uma base sólida onde seus pais se preocupavam e tudo mais. Eu estava fora de casa quando tinha 17 anos e sou muito grato por isso agora, porque de uma maneira estranha, provavelmente me transformou em um super-empreendedor. Senti que tinha de lutar mais para as coisas que eu queria. E vendo minha mãe trabalhar muito, muito, eu acho que afetou minha maneira de olhar para essa banda, a ética de trabalhar com eles e tudo mais.”

Com seu pai indo e vindo do trabalho o tempo todo, acho que muito da carga financeira caía sobre sua mãe…

(Billie) “Ah sim, eu raramente via minha mãe porque ela estava em turnos da madrugada em um restaurante 24 horas. Era difícil para ela, mas ela tinha que fazer isso. Uma coisa pela qual eu sou grato é que agora eu posso cuidar dela melhor. Não era fácil naquele tempo, houve muita gritaria e outras coisas que passamos juntos.”

Você toca nesse assunto em uma de suas mais famosas letras, onde sua mãe diz para conseguir um emprego, mas ela não gosta do que ela tem… (mom says to get a job, but “she don’t like the one she’s got , Longview)

(Billie) “Sim. Às vezes me sinto mal por ter escrito essa letra…”

Era tocante, eu acho. Você pode imaginá-la voltando de um turno realmente difícil e olhando para uma casa cheia de responsabilidades e crianças… Você se sente como se às vezes não tenha a tratado tão bem assim?

(Billie) “Sim..Tem uma coisa que eu preciso dizer sobre a minha mãe: ela é uma sobrevivente. Ela passou por muita coisa. Passou por muitos maridos, muitos maridos que faleceram e mesmo assim, ela ainda queria trabalhar  e continuou trabalhando como garçonete, ela poderia ter largado a hora que ela quisesse, mas era parte da vida dela.”

Falando em deixar a escola, quando foi que você decidiu sair da escola e tomar outro rumo ?

(Billie) “Eu parei na 12 ª grade” (Último ano do colgeial no E.U.A)

Então, você nunca se formou no colegial? Você não é uma boa propaganda para o valor da educação…

(Billie) “Eu quero voltar para a escola…”

Voltar à escola?

(Billie) “Bem, eu provavelmente quero pegar meu diploma.”

Você acha que poderia conseguir fazer isso agora?

(Billie) “Acho que sim, espero que sim.”

O que acontece se os seus próprios filhos chegarem  ao 11 º ano ou 12 º (penúltimo e último ano do colegial)  e começarem a argumentar: “Bem, você não fez pós-graduação do ensino médio e você fez tudo errado, por que eu tenho que fazer a coisa certa?” Acho que você poderia sempre recorrer a sua autoridade de pai, “Porque eu disse isso, e eu sou seu pai.” De qualquer forma, você foi um daqueles que só apareceu para a classe, mas não realmente prestar muita atenção, estou errado?

(Billie) “Eu tenho uma mania de não prestar muita atenção as vezes. Eu acho que simplesmente não era para mim. Eu provavelmente poderia ter terminado  se eu me  aplica-se mais, no fim eu acho que não estava muito interessado.”

No que você estava interessado ?

(Billie) “Eu estava interessado na cena punk . Eu estava aprendendo muito mais através do “Gilman Street”, e ouvindo várias músicas… Eu conversei com Aaron Elliott ( também conhecido como escritor / zine editor Aaron Cometbus) sobre isso uma vez, e ele falava que não só as pessoas podem resolver seus problemas  através de punk rock  mas eles podem  também se transformarem em pessoas realmente educadas indo ao “Gilman” e foi a primeira vez que eu pensava sobre alguma coisas desse tipo.”

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